Bad trip é sempre bad? Possíveis pistas de variáveis que atravessam a ''bad trip''


Muitos já passaram ou pelo menos conhece alguém que já passou por uma bad trip, e seja lá qual tenha sido a intensidade dela, ninguém quer passar por uma não é mesmo? Gostaríamos de propor aqui uma reflexão, como nós refletimos sobre qualquer outra experiência em nossa vida. E como toda experiência tem potencial de trazer um aprendizado, com a bad trip não seria diferente... Então me diz: como foi pra você? Como te afetou? O que ficou?


Antes de iniciar, um breve resumo sobre o que entendemos como a famosa "bad trip". A bad trip é um fenômeno que também pode ser produzido a partir do uso de drogas, todos os usuários, sejam eles recreativos, funcionais ou experimentais, estão sujeitos a passar por essa onda. Vale lembrar que não necessariamente esse fenômeno ocorre pelo uso abusivo da substância.


O uso de drogas é complexo e expõe em algum grau nossas vulnerabilidades, pode acontecer que na sua onda, apareça algo seu, algo do seu íntimo, que você não elaborou, expondo uma questão sua de forma mais ampliada. O que para alguns pode ser uma experiência recorrente, para outros é suficiente para nunca mais se repetir. Afinal de contas, nem sempre estamos preparados para o inesperado (e nem precisamos!!!). A bad trip pode acontecer com qualquer substância (lícita/ilícita) e não é sinônimo de fraqueza, nem de inexperiência, como foi dito acima, é um fenômeno complexo que é atravessado por diversas variáveis e circunstâncias. Inclusive há quem diga que se você passou por uma bad trip, é por que isso precisava acontecer com você, de alguma forma. Ou seja, nem sempre a bad é realmente uma bad.


Sabemos que muitos fatores influenciam nesse momento e abordaremos aqui alguns pontos e questionamentos importantes a se fazer a respeito da experiência. Entre eles estão:


▪️Uso de livre e espontânea vontade. Muitas vezes uma bad trip pode ser causada por que a pessoa não estava muito afim de usar naquela hora... Não estava se sentindo bem, ou foi induzida ao uso. Querer é o primeiro passo a ser pensado.


▪️O conhecimento sobre a substância consumida. Você pesquisou sobre? Já conhecia ou teve algum contato antes? Já viu alguém sob o efeito? Sabe como fazer o uso? Tudo isso oferece um pouco mais de segurança ao fazer o uso.


▪️A quantidade. Cada usuário precisa se conhecer e entender qual a quantidade é considerada suficiente para ter uma brisa legal, e também saber identificar quando o uso se extrapola. Ninguém melhor que você mesmo para saber seu limite. Se o usuário é experimental, a atenção deve ser dobrada. Nesse sentido, menos é mais.


▪️A qualidade. O proibicionismo permite que o acesso a uma droga que não se sabe a procedência, e sem regulamentação corre o risco da substância estar adulterada e te causar problemas durante a onda.


▪️O momento. Aqui falamos do conjunto da coisa (lugar, pessoas, conversas, estímulos). É interessante analisar: estava me sentindo a vontade? O momento estava propício, favorável?


▪️Companhias. Você fez o uso sozinho? Acompanhado? Se você não estiver se sentindo seguro quanto ao uso, é interessante que uma pessoa de confiança te acompanhe, te guie, isso inclui conversas sobre como você está se sentindo, se "já bateu", e também para te socorrer ou te acalmar caso precise de ajuda. Principalmente se for experimentar, que alguém esteja "de cara", já pensou dois doidões fazendo o uso pela primeira vez? Pode dar muito bom ou muito ruim também, se der ruim a pessoa suga sua onda ou você suga a onda dela.


▪️ Expectativas. Após pesquisar sobre, você fica informado sobre os efeitos e sintomas que deve esperar, o tempo de duração da onda (saber que é temporário ajuda a não ficar muito ansioso) e inclusive fica consciente de que pode acontecer uma bad trip. A intenção do uso pode fazer com que você se prepare e tenha consciência de como o uso pode reverberar em você. O uso planejado pode ajudar.


▪️O último e não menos importante: você!!! Como você estava no dia que consumiu? Estava bem? Em um lugar seguro (onde não corresse o risco de chegar alguém e perceber você doidão? Se isso for um problema, claro) Estava com todas suas necessidades fisiológicas atendidas? Levou em consideração as estratégias de rd?


Essas e outras infinitas variáveis como lugares fechados, escuros, não familiares, pouco ventilados, eventuais sons (estímulos) e etc. Poderíamos ainda ampliar o olhar para essas variáveis no macro, que estão para além do consumo individual como: o acesso a informação e conhecimento sobre drogas, as concepções que perpassam o imaginário social e o papel das políticas públicas de drogas. É importante ressaltar que o proibicionismo afasta o usuário do cuidado em saúde feito pelos profissionais por conta da vergonha, medo do julgamento, de denúncia (alguns hospitais tem policiais dentro), do despreparo, entre outros.


A redução de danos tem um papel muito importante em relação ao acolhimento dos usuários em situação de bad trip, se você consegue identificar possíveis causas da bad, se decidir fazer o uso novamente, você pode tentar se prevenir para não acontecer de novo. Em festas e festivais de músicas por exemplo, onde o uso de drogas acontece por muitos dias consecutivos, é comum acontecer essas bads, e muitas vezes, ela poderia ser evitada com coisas simples como: estar disposto, estar devidamente alimentado, hidratado, descansado.


Sabemos também, que pode acontecer de algum usuário repetir o uso da substância sobre outras circunstâncias e mesmo assim, não achar a brisa agradável, e tá tudo bem!!! Cada pessoa, de acordo com o seu autoconhecimento vai saber dizer o que te faz bem ou mal e qual a droga que mais te proporciona bem estar e prazer. Algumas pessoas nunca vão gostar de álcool, isso pode incluir experimentar vários tipos de bebidas e não gostar da sensação de estar embriagado. Outras nunca vão gostar de maconha e da sensação de estar chapado, ou de drogas sintéticas e da sensação de "fritar". Afinal de contas, nem todas as drogas são para todas as pessoas. As pessoas com esquizofrenia por exemplo, não é recomendado o uso de drogas alucinógenas, devido as consequências que elas pode causar atreladas aos medicamentos, enfim, piorando muitas vezes o quadro.


De NENHUMA forma estamos deslegitimando sua experiência ruim, nem te incentivando a usar de novo a droga que te causou bad trip!!!! E sim, refletir o uso, as variáveis que atravessam sua onda. E estamos longe de esgotar todas essas variáveis que te atravessaram, aqui esboçamos algumas possíveis pistas...


Eai? Gostou do conteúdo? Espero que sim e que tenha tirado algum aprendizado!!! Comenta aqui se você já passou por alguma bad trip, se você consegue identificar as possíveis causas, se ela mostrou algo sobre você... Como você conseguiu contornar a situação, como lidou com ela... E marca também algum amigo que tá afim de experimentar pela primeira vez pra ele levar em consideração esses pontos que foram colocados!!!


Para mais informações sobre bad trips, acessem esse artigo que estará também disponível na Dichavoteca: www.dichavandoard.com.br/dichavoteca



Referência:


DANTAS, Suene; CABRAL, Barbara; MORAES, Maristela. Sentidos produzidos a partir de experiências de bad trip: drogas, prevenção e redução de danos. Saúde debate,  Rio de Janeiro ,  v. 38, n. 102, p. 539-550,  Sept.  2014 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-11042014000300539&lng=en&nrm=iso>. access on  29  July  2020.  https://doi.org/10.5935/0103-1104.20140050.

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